domingo, 15 de novembro de 2009

POEMAS

INTRODUÇÃO


Este livro de poemas que agora aqui se mostra, em bom rigor, é uma selecção de poemas de dois livros diferentes, "Uma Língua de Fogo" e "Tudo", que foram publicados nos anos de 2007 e 2008 no Blogue da Casa de Estudos ( http://ceav.blogspot.com/ ). Os dois livros acabaram por se juntar para ser mostrados à Editora Portugália, mas a edição acabou por não ter viabilidade. Livre, pois, que ficou o livrinho, decidimos agora publicitá-lo integralmente on-line, sem mais custos para quem tiver curiosidade de o ler que não seja em tempo de vida. Assim, resta-me desejar que o eventual tempo gasto não seja em vão e que a leitura se traduza algures em centelha de luz, capaz de vos ajudar a iluminar o caminho. Bem hajam.


à Língua Portuguesa
e às luzes do teatro que são as estrelas.


LIVRO 1 - 
UMA LÍNGUA DE FOGO


1.

Agarro o pensamento
e paro por um pequeno momento
o tempo.
Dobro e redobro o papelinho,
guardo (a ideia) na carteira
e espero que a inspiração
dure a semana inteira.



2. A Sério e a Brincar

Falar a sério
e a brincar
ser um tolo, maluco
não atinar
virar as palavras de pernas pró ar
ser professor
um senhor doutor desatinado
com o fato desengomado
escrever filosofia
fazer poesia
dizer as coisas a sério
e a brincar
rebuscar o seu mistério
rezar
procurar um pouco de paz
tão bom que era estar sempre em paz
e ter amor
fazer músicas
cantar
gostar de Cristo
não ser católico, mas ser pagão
prender o diabo na palma da mão
dizer não à guerra
voltar para trás a embrião
ficar completamente à toa
mas afinal quantos somos cada um
ó Fernando Pessoa
discutir a política
não ser de um partido político
profetizar no escuro
receber as coisas do futuro
juro que sim meu amigo
está perdido o mundo não está?
só pensas em dinheiro
pensa em ti primeiro
pensa por ti antes de nada
pensa nos outros como pensas por ti
descobrir aquilo que é seu
querer ir para o céu
conhecer o mistério da vida
a partir da altura devida
ser o resultado dos seus avós e bisavós
diminuir as drogas e o vinho
tentar descobrir o caminho
o equilíbrio da natureza
ter a certeza
tentar ter a certeza
aumentar o sorriso
ficar para sempre no Paraíso
um dia
saber que se pode ir lá ter
quando se quiser
quando se estiver pronto
ser um tonto
não ser demasiado sério
ser religioso
falar a sério e a brincar
virar o mundo de pernas para o ar.



3. Saudades do Futuro

Pretende-se
nesta mensagem Portuguesa
dizer
que ninguém é mau por natureza

O Homem procura o fel
a vida esconde o mel
bem por dentro do futuro
que eu bem vejo daqui agora,
como Pessoa sinto chegar-se a hora
dos desígnios dos Lusíadas
com chegadas sem partidas
em nonos cantos descritos
e dos sonhos do Dinis
que terão um final feliz

Seremos Pessoas de brandos actos
no lugar dos habituais maus tratos
num dom que se alargará ao mundo
se seguirmos o Vieira
ou ao contrário, como se queira

E aí, surpreendentemente, seremos imortais
apóstolos, santos e outros demais
em vez dos tristes guerreiros,
negociantes ou banqueiros
que eu bem vejo daqui agora
que se está chegando a hora

E não se preocupem com o tempo
nem com o momento presente
tudo mudará num repente
(ou pelo menos é o meu desejo,
a partir daquilo que vejo)
e com surpresa verão
numa outra dimensão
que afinal não é tempo,
é gente.



4. Um Poema Meio Vegetariano

Mas que grande burro este
já não sei o que fazer
bebe leite de vaca
logo pelo amanhecer

de novo fresco sai à rua
vai ver o dia a nascer
e consegue sentir a graça
daquele pessoal a correr

chega a hora do almoço
e como lhe dá que pensar
o encher da barriga
com o amigo peixe do mar

de caminho pela tardinha
com o sol no seu alvor
fecha os olhos e só contempla
as estradas do interior

fica pronto para o jantar
e a baralhar os costumes
deixa a carne de lado
e mistura-se aos legumes

à noite vai ver os amigos
bebe, fuma e fala à lua
vai para casa e sempre sente
o mistério da sua rua

e assim passam os dia
numa direcção bem definida
sentindo-se neste vogar
a doce embriaguez da vida.



5. A Ilha

Neste nobre estremenho lugar
onde vêm as águas do Tejo
trazidas pelo vaivém do mar
existe uma pequena vila
em si, tão só e tranquila
dando forma aos pensamentos
desde o princípio dos tempos

Nesta vila há uma ilha
que a voz mansa dessas águas
chama de eterna maravilha,
num momento mais insensato
chamaram-lhe "Ilha do Rato",
mas eu nos meus sonhos a cores
chamo-lhe de "Ilha dos Amores"

Foi ela que em tempos de outrora
sussurrou aos ouvidos do rei
que se tinha chegado a Hora,
sentira curiosidade ao pensar
em quais os caminhos do mar,
e o João I, também por causa do Dinis,
lá foi fazer o que ela quis

E à nossa ilha em homenagem
o Camões escreveu um canto
deixou Pessoa uma mensagem,
e um dia através dela, por certo,
se há-de revelar o Encoberto
como nos contou com carinho
o bom amigo Agostinho

Esta ilha tem uma vila
e esta vila tem um grupo
que vai em direcção ao Absoluto,
ela em si lá vai estando
os amigos a vão rendilhando
e quem distraído passa
nem vê que ela está cheia de Graça.



6. Eternamente Brincar

Eternamente brincar
simplificar a ideia
torná-la jogo infantil
sem mais demora
brincar com as palavras,
descomplexificar,
virar o texto
de pernas para o ar
tocar a reunir
lutar, lutar, lutar
para divertir o mundo

Generalizemos a brincadeira
e até iremos às descobertas
outra vez
desta vez
sem sairmos daqui
de dentro do peito
onde construiremos o nosso castelo de areia.



7. Três em Um

Deixem-me agora que lhes diga
que quase tudo o que escrevo
não sou eu, nem sei se devo
é o destino que me obriga

De facto,
tudo, ou quase tudo, o que faço
não sou eu, é o que passo

Sou até levado a pensar
que naquilo em que me vês
não é de uma pessoa só
é de, pelo menos, mais Três

E nas voltas do sem fim
se julgo o que a vida me deu
vejo afinal que tudo é deles, não meu
são só serviços que vão de mim

(como nos contou e com muito carinho
o bom amigo Agostinho).



8.

E eu vou por meio das cores
falam de inimigos
eu só vislumbro amores
e renasço em amores esquecidos.



9.

Depois de tanto tempo
à procura de mim,
até que enfim,
encontrei Portugal

Daqui a mais um tempo
talvez ache pouco, é normal
em vez de cantinho europeu
terei vínculo mundial

E se o pensamento tudo pode
é só mais um passo, afinal
apanho o comboio da Física
rumo à escala universal

Grande e pequeno, longe e perto
no fundo é tudo igual
logo sou de Alhos Vedros
que é a minha terra natal.



10.

O Verbo é o som
a vibração que produz o som
a respiração do Universo,
e que comanda a palavra e a música.



11. Oração

Diminuir o sofrimento
eliminar o sofrimento
ser eu
não ser nada
comunicar ao vento
receber o sol
pertencer ao sol?

Saber estar com os outros
aceitar os outros
ajudar os outros
aceitar dos outros
ser forte
ir perdendo o medo
não ter medo
não vacilar
criar.

Vencer a doença
deixar de ser doente
sempre.



12.

Procuram as palavras o sentido
que não podem explicar.

Como se pode entender,
ao escrever,
Branca Luz Puríssima?



13. Alhos Vedros

Tive tempos de agricultor
fazedor de vinho e até pastor
salineiro, corticeiro e arrais...

Acabei por ficar professor
já é trabalho demais.



14. Calor do Peito

É uma certa coisa
coisa incerta
uma seta que acerta
é um asceta que pede esmola

É uma rosa cor-de-rosa
uma cruz sem Cristo
onde o bispo lava as mãos
e é um tudo quase nada

É partir a correr à desfilada...



15. Argonautas

Que não só já no mar
é na terra e no ar
que nós nos sentimos a navegar

Trocámos a bússola pelos sentidos
no lugar da vela latina pusémos o coração
abrimos o peito ao vento
e sentimo-nos a navegar no ar

Barco alado, velo de ouro
amarrado à terra
à volta das gentes
entre histórias de desencontros
e de lamúrios entre dentes
navegamos
em terra e no ar
que não só já no mar.



16. Iberia

Hubo un tiempo
en que peleamos
infantiles nos matamos uno al otro

Hubo mismo un tiempo
en el que exageradamiente me hiciste tuyo:
llegaste y reynaste, me tomando todo
hasta que de nuevo nos matamos uno al otro.

Esos tiempos cambiaran.
Hoy te quiero solamente amiga
y signo de eso mismo es hacer
de mi canto tu lengua,
mostrarte que al meterme en tu piel
te quiero respectar como eres
como se de mi mismo se tratara,
te quiero plenamente comprender
y se necesario discordar,
pero esta vez ya en paz.

Al diantre de hoy mano com mano
caminaremos.

a um anónimo António,
a Espanha!,
(com os devidos agradecimentos ao Manuel João
que me conseguiu a tradução
e ao Abdul Cadre que corrigiu).



17. INICIAÇÃO

Alegria
desocupação
ir para dentro
meditar, contemplar
agir com alegria
feito uma borboleta
que resulta em furacão
como resultado da acção

Ser um dócil e alegre furacão
não sendo
funcionando por encomenda
ou por serviço
feito um noviço

Um iniciado à solta
sem escolta, nem escola
que faz uns poemas
e passa por duras penas
mas que aposta numa vida alegre
através de uma vida sadia
onde o que mais conta é a alegria.



18. Abraço

(ao Rui Augusto)
Prometes
que se eu abrir o coração contigo
tu não vais rir?
se eu me desinibir e disser coisas sem sentido,
coisas que só se dizem a um amigo,
que não vais ser frio, e vais até tentar gostar?
E mesmo que seja um poema tolo
que pareça coisa de louco,
de alguém que não está no estado certo,
prometes que não vais fazer pouco?
Prometes?

E se eu te entregar o meu pobre olhar?
se eu disser que é longe
e estar-se mesmo a ver que é perto?
não me vais tentar dizer
que estou estranho, e que não percebo
a dimensão nem o tamanho?
Prometes?

E se eu não conseguir falar,
se disser as coisas a gaguejar?
Vais tentar compreender?
Vais tentar ouvir, a sorrir
sem pensar mal de mim?
Mesmo se eu fizer um ar de entendido
prometes, mesmo assim que poderei ser teu amigo?
Prometes?



19. ... Uma Rosa!

(ao Zé Batista)

Nem relógio, nem agenda
já sei
vou-lhe dar como prenda
um livro
escrito por mim,
ou uma flor?

O mundo inteiro
talvez não
um botão de rosa
sim, é isso, uma rosa
mas em prosa caduca também não
tem de ser em poema
vou vasculhar na gramática
uma regra fora do esquema
um sítio, numa ilha escondida
um índio, um sonho
de uma floresta
uma clareira no monte
uma fonte de água límpida
enfim, uma rosa que é tudo
que é esposa e trabalho
que é filhos e de-lírio
uma flor de lis
do Luis.

Uma rosa, cor-de-rosa, bendita
sem espinhos
e dar-lhe-ei beijinhos
nem me importa o que diga o mundo
será um fruto do futuro tornado presente
um presente feito um tempo antecipado
um ser encontrado
adorado e agradecidamente amoroso
um fogo feito pomba em festa
uma dança, um transe, uma ternura
que vai direitinha a ti
de mim.



20.

Fortaleza, com certeza.
Sabedoria, alegria, amar a luz de cada dia.

Amar tudo?
Amar o amor.

Subtileza e leveza.
Nada de amarras,
nem de afiar as garras.

Deixar fluir tranquilo.



21. Paz e Liberdade

Tenham dó.
Parem.
Metam a cabeça entre as mãos
e chorem
chorem, chorem
até que lhes nasça um sinalzinho
um ressentimento, qualquer coisa
que acabe a matança.

Os americanos adoram brincar ás guerras
meter a paz na ponta das baionetas.
os alemães, os ingleses, os franceses
e até os portugueses
quase todos, coitados
andam enervados.

Fazer e vender armas
para depois comprar a paz, que estranho...
que falta de consciência
que paciência é preciso ter
para os senhores da guerra.

Quanto amor se tem de arranjar
de inventar, de descobrir
para que não se percam todos de vez?
Quantas lágrimas será preciso deitar?
Quantas cruzes e quantos pregos
a espetar e a estalar o osso?
E quantas coroas de espinhos?

Que sofrimento é este?
Porquê?
Quem és tu senhor da guerra?
Sou eu? É parte de mim?
É a minha imperfeição? É a minha doença?
Arreda daqui Satanás.
Vai-te. Não te quero por perto.

Pela paz e pela liberdade
sem que sofrimento sobre.



LIVRO 2 -
TUDO


1. Casa de Estudos

Estudar é procurar
o caminho da lá chegar,
aprender a ser.

Ir à escola é ir estudar.

Ensinar é ajudar a crescer,
a ser feliz.

Ir à escola
não é ir trabalhar
é ensinar e aprender,
a brincar.



2. A Síntese da Luz

Uma gota de água
um raio de luz e truz
num cantinho de terra
qualquer coisa germina
auto-suficiente, cresce para cima
e é verde

Uma gota de água e um raio de luz
e truz
respira no ar
o nosso respirar
o nosso sustento

É um milagre vulgar
a síntese molecular
o nosso verdadeiro patrão
a nossa esperança de vida,
uma gota de água e um raio de luz
e truz.



3. Ser em forma de não ser

Saber ser a parte do ser que se é
deixar de saber
procurar e achar
perder
ganhar

Saber sempre ser a parte possível do ser que se é
esquecer e não encontrar
reencontrar o jeito de lá chegar
silenciar

Saber ser o que se é
sendo sempre pouco,
sendo tanto

Saber que se é, não sendo.



4. Lá

Não há dor

só amor.

É por uma trilha estreita
um foco de luz
é o Nosso Senhor Jesus
para mim
é Maria
é todo o dia e toda a hora

como lhe chamas tu?

É redenção
nem a dormir nem acordado
é mais do que alegria
é mais que a luz do dia
é estar calado
é uma lágrima de Mãe
por ti

é um absolutamente contido
e contigo
é sem princípio nem fim

É um calor no peito
é silêncio que irradia
harmonia
ligação
encontro

passa a ser cá
é a gente mansa
o olhar de uma criança
mais do que a felicidade


É fogo que arde sem se ver
e pode ser
leve coisa, coisa nenhuma
ultra suavidade
serenidade
lá que é cá
e é em todo o lado
é um campo unificado
inter-relações cósmicas
que vão daqui


É uma mentalização
é ser e querer
é querer ser
puro
mais do que singela
é Ela

a rezar
a pedir por cá
a pedir a quem?
a pedir a ninguém

Nada existe
por cá
só ilusão
uma roda que gira
que gira
efémera
legados dos antepassados
e grandiosa
porque é a sombra de lá
lá que é cá,
lá.



5. Modern Words

Está-se bem na Espiral.
Na Praça Ilha do Faial
em Lisboa, mesmo juntinho
ao Jardim Cesário Verde
que por sinal é bem verdinho.

Cantinhos urbanos que muito enriquecem a vida
de quem lá passa.
Há lugares que são lições de vida,
é neles que realmente vale a pena viver.

A pena?..



6. Noite fora...

Contei as horas todas uma a uma
as velhas árvores que já não vejo de tanto ver,
subitamente lembro-me como eu era
sentado à porta de uma caverna
os restos de uma fogueira que ainda crepita
olho a luz das estrelas
através do véu negro da noite

Os outros lá dentro dormem, e eu de vigília
o silêncio é absoluto
nada de vãs electri-cidades.
Quem era aquele eu que neste se transformou,
quem sou eu que corro assim por dentro da eternidade?

Aprendi, afinal, a ordenar as letras fazedoras de sentido:
Tu és a minha princesa
a quem eu me encosto de mansinho durante a noite,
já me doem as palavras meu amor
de tanto me dar por inteiro à festa da vida.
Consegue-se ouvir o silêncio, não é verdade?



7. O Amor

Amor é amar
é remar contra a maré,
com delicadeza

é pacificar com firmeza
ser de tudo no mundo
e criar,

a mais justa adequação
saber dizer que não
mesmo querendo dizer que sim

é experimentar e não se precipitar
é saber suportar a dor
ser deus e ser de deus
ser santo e ser dos santos

enfim,
amor é mesmo amar.



8. A Cidade de Todas as Cores

Muitas brincadeiras de crianças
e muitas danças
uma festa na floresta
exporádica e permanente, naturalmente
e um restaurante em forma de elefante
donde sai uma marginal em espiral
com repuxes, frondosas árvores e pombas
transportes eléctricos e alados
e ninfas
pelos prados, pelas rochas, pelas nascentes
assim tipo uma península
de luz manifesta em arcos-íris
e, por isso, uma cidade de muitas cores
que para simplificar
costumamos chamar de Ilha dos Amores.



9. Una chiquita Laura

Una laurita chica
qui todos los dias
mi vien a perguntar
lo qui quiero manjar

sus prietos ojos profundos
puertas qui si abren a otros mundos
vertiendo preciosas piedras
traziendo tiempos por detras de tiempos

bandejita de prata, calidas manos
logo mi libra el verbo
y facil mi tuerna el hablar
como si fuera un passarito a cantar

(a una bonita chiquita del Uruguay)



10. O Pintor e o Pássaro Azul

Numa doce manhã
um suave regresso
qualquer coisa que há no ar,
um passarinho azul
está pairando, esvoaçando
a cantarolar, dá uma volta
uma volta e meia
e quando volteia pousa no seu olhar

No coração que meigo e terno bate
está uma ideia
feita uma aguarela, amarela
que volteia na tela
e do meio do branco vazio
que era nada
um passarinho azul que sai
correndo através da manhã

Feito um pedacinho de lã
vai voando, cantarolando
da fantasia que foi um dia
da saudade de partir, do regresso
até que de novo encontra um papel
um outro olhar
uma ideia feita um arco-íris
qualquer coisa que está no ar.



11. The morning star

(for a celtic girl)

The morning star is coming
on this place of grace
easy air envolves her
clear eyes around me

All she knows about the future
tomorrow is just a past
loveness is just over there
she never take a mistake

In a very secret way
maybe she gonna stay
some time with me
on our prayer mind



12. L’Infinit

Parce que un jour
Parce que l'amour
Parce que mes amis
Parce que l'esprit

Depuis qui toute a écrit
Depuis qui toute si a dit
Depuis qui a vénu la disencontre
Depuis qui arrivée le fin du monde

Je mon vais à changer
Je mon vais à parler
Je mon vais à l'écrire un poéme
Je mon vais à la même chose



13. O louco aventureiro

Na festa
com a Senhora dos Anjos,
no palco
no início da noite de gala,
no murmúrio da noite
as gentes,
o vento morno e quase quente
quase nada.

A viagem por dentro, interestelar
os olhos fechados
e de joelhos postados,
o sangue que corre e acende o fogo.

A videoconferência
um écran gigante em cada esquina
num domingo de manhã,
as alcofas que vão nas mãos à praça
os anéis que vão nos dedos à missa
e um banco de reformados sentados,
cinzentos.

E eu a filmar e a vê-los mais velhos
muito mais velhos,
genética milenar,

e alguém que nos écrãs aparece
caminha decidido e multiplicado por dez
anuncia o triunfo do louco sonhador.

homenagem à memória e à alma de
Vasco Óscar Batista Soares.



14. Um outro porto

Já tantas vezes parti com vontade de ficar
já tantas vezes fiquei com desejo de voltar
já tantas vezes quis regressar e fiquei
quem sabe passos decisivos que nunca dei,
agora chega

Vivi a pensar em ir embora
deixar tudo, largar tudo, e que era lá
o lugar do sonho, da alegria, da vitória
areias de uma praia onde faria a minha história,
já não tem sentido

Afinal a história não era minha
se existe um lugar porquê tanta procura
se podemos ir por dentro porquê ir por fora
se está tudo tão sereno para quê ir embora,
o meu lugar é aqui

Se podemos estar sempre a chegar para quê partir?



15. Mutantes

Tão depressa agora se muda
o que durou e perdurou por anos e anos
por muitos e muitos anos,
aqui o que era e ainda é
afinal já não é,
lá se vão num repente
os legados dos nossos antepassados
é uma velha ordem que vai
e da velha ordem
há uma nova ordem que sai

É um pequeno brinquinho a mais
por baixo de cabelos ás cores,
é um casa e descasa
por baixo dos cobertores,
e a cultura local mistura se
com a cultura universal,
mas é ainda o ouro que reina
a lei da pistola contra a fome
a inveja por se achar de direito
e o homem caminha às avessas
apressado, magoado e desconfiado

E da velha ordem que vai
há uma nova ordem que sai,
mas ainda uma ordem tão fraca
tal e qual do tamanho do homem
de tão pouca ambição
de tão pouco querer
que no lugar da eternidade
antes prefere morrer
quase ainda acabado de nascer.



16. Maria Luis, Imperatriz

(Mote: "Hoje acordei poeta e a minha bola de cristal é uma folha de papel em branco...")

Vamos ver nascer o dia
diz a Maria, Imperatriz.
Pai porque vão apagar as luzes?

Depois da sinfonia nocturna das rãs
já se ouvem os primeiros acordes dos galos
brindam à aurora

Depois canta o melro, os pardais, as andorinhas
a Ordem é esta
já o oxigénio começa a sair das verdes folhas

Ligam os vizinhos os motores
o dia surge em ar de festa
logo mais chegam os homens voadores.



17.

Por uma vereda
vão meninas à praia

por um atalho
se encurta o destino

por um carreiro
seguem muitos em fila

por um caminho
vou eu devagarinho

cantando em voz alta
dos segredos que gosto.



18. Triângulos

Então está combinado
ele faz um telefonema,
eu desenho um poema,
tu dizes uma pintura
em jeito de caricatura.

Três pontos em triângulo,
Lisboa como ponto de encontro.

O críptico simples será
mas contudo brilhará
num céu de Lusofonia
em Pentecostes de folia
de gente em andanças Mil
que a terra resplenderá
entre Timor e o Brasil.



19. A PAZ

Se acaso
estas palavras que vos vou dar
vos puserem a voar
não se admirem

mais do que esta faculdade
facilidade de levantar os pés do chão
é a vossa atenção
e as cartas de amor dos amigos

por isso, em silêncio
fico assim a olhar
o Mar.



20. Um altar em construção

É verdade ou não
que inventaste uma nova religião
nunca foste a uma missa, nunca fizeste comunhão
depressa largaste a lei do Tao,
a pureza matemática macrobiótica,
da meditação transcendental, do Induismo, dos Vedas
a primeira abandonaste, os outros nunca tentaste.
Arreda Satanás,

É verdade que te ligaste aos espíritos antepassados
aos mortos que continuam vivos
princípios gerais de primitivos animismos,
vagueiam-te pelos pensamentos
elementos simples de livres budismos,
tu amante de diárias leituras cristãs
que tal como todos os jurados caminhos
de místicos, profetas e videntes, em ascensão
procuram as portas da libertação, da carne
anúncios de uma outra proeminência.
Arreda Satanás,

Sentes-te um Português de longe, não é?
conquistador, navegante, templário
de cruz vermelha em manto branco ao peito,
combatente não activo de Dinis
militante pacifista universal
de um lugar para a Língua Portuguesa,
um mensageiro de Isabel
que te trouxe a coroa de Rei dos Judeus
a coroa dos eleitos, do Espírito Santo
a lembrar as insígnias no alto da cruz,
um cavaleiro de Jorge
um vencedor de dragões
um sinaleiro de pombas.
Arreda Satanás,

Agora que todos juntaste é verdade ou não
que temos uma nova religião?
A religião das religiões.

Assente em rudimentar filosofia, é certo
numa pretensão de ser tudo
aprendiz de Deus entre deuses
quando se é pouco mais que nada
de fracos poderes entre os vivos
entre firmes pilares de limitados horizontes
todavia, um ser nada que não é vazio
um nada absoluto sedento de liberdade
troca-tintas de exercícios orientais, físicos e mentais
praticante de preces locais
com poderes especiais no jogo da vida

De uma Vida que em si é tudo
em curtes vegetarianas a meio tempo
curioso de práticas reikianas
buscador de apostólicas energias de cura
de revelados óleos essenciais
ou de naturais essências
que também vêm através das ciências
e do que mais estará por vir
porque tudo isto é tanto, muito pouco.